Em um setor que voltou a crescer em 2026, operações que utilizam dados, automação e inteligência comercial ampliam a distância em relação aos concorrentes
Os bares e restaurantes brasileiros estão vendendo mais em 2026, mas boa parte do setor continua enfrentando dificuldades para transformar crescimento de receita em aumento de rentabilidade. Dados do Índice Abrasel Stone mostram que as vendas cresceram 3,4% em abril na comparação com março e avançaram 8,2% em relação ao mesmo período do ano passado.
Ao mesmo tempo, pesquisas da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) apontam deterioração da situação financeira de parte dos estabelecimentos, pressionados pelo aumento dos custos operacionais e pela dificuldade de repassar preços ao consumidor.
Para Athos Vilarins, empreendedor em marketing, posicionamento estratégico, crescimento comercial e CEO da Assessoria Alpha, maior agência de marketing para restaurantes da América Latina, o setor vive uma mudança estrutural, que de acordo com ele, o crescimento sustentável depende cada vez menos do aumento isolado do fluxo de clientes e cada vez mais da capacidade de utilizar tecnologia para gerar eficiência operacional e previsibilidade de receita.

“Os restaurantes que mais crescem hoje não são necessariamente os que recebem mais clientes. São aqueles que conseguem acompanhar indicadores, entender o comportamento do consumidor e tomar decisões com base em dados. A tecnologia deixou de ser um diferencial e passou a ser parte da operação”, afirma.
Crescer já não significa apenas vender mais
Durante muitos anos, o crescimento dos restaurantes esteve diretamente associado à localização, ao volume de clientes e à qualidade do produto, embora esses fatores continuam importantes, a digitalização alterou a lógica do setor.
Ferramentas de CRM, automação de marketing, sistemas integrados de atendimento, cardápios digitais e plataformas de relacionamento passaram a ocupar um espaço estratégico dentro das operações. O objetivo não é apenas vender mais, mas aumentar a recorrência, melhorar a experiência do consumidor e reduzir desperdícios.
Para Gustavo de Oliveira, especialista em desenvolvimento comercial, fundador do Grupo Alpha e do FGA Instituto, a diferença entre operações estruturadas e negócios informais tende a aumentar nos próximos anos. “O empresário que conhece seus números consegue identificar barreiras, prever demanda e agir mais rápido. Já quem continua operando apenas com base na experiência ou na percepção pessoal encontra mais dificuldade para manter margem e crescer de forma consistente”, afirma.

Segundo ele, uma das principais mudanças do setor está relacionada à forma como os restaurantes passaram a enxergar seus próprios dados. “Muitos estabelecimentos ainda olham para o faturamento como principal indicador de sucesso. Mas o faturamento sem controle de recorrência, retenção e eficiência operacional não significa necessariamente crescimento”, diz.
Margens pressionadas aceleram profissionalização
Levantamento da Abrasel divulgado em 2026 mostrou que uma parcela significativa dos estabelecimentos opera com dificuldades para equilibrar custos e rentabilidade, mesmo diante da recuperação gradual do consumo.
Na avaliação do CEO, esse movimento está levando empresários a buscar soluções mais estruturadas. “Quando a margem fica pressionada, cada decisão passa a ter maior impacto no resultado. É nesse momento que ferramentas de gestão, automação e relacionamento deixam de ser opcionais e passam a fazer parte da estratégia financeira do negócio”, afirma.
O contraste entre crescimento das vendas e pressão sobre a rentabilidade tem levado empresários a rever processos, reduzir desperdícios e buscar maior eficiência operacional. Nesse movimento, ferramentas de automação, gestão de relacionamento com clientes e análise de dados ganharam espaço dentro das estratégias de expansão do setor.
O futuro do food service será cada vez mais orientado por dados
Com mais de 3000 restaurantes atendidos, o Grupo Alpha observa uma mudança consistente no perfil dos negócios que conseguem ampliar o faturamento sem comprometer a rentabilidade.
Segundo o especialista Oliveira, a capacidade de transformar informações em decisões práticas tornou-se um dos principais ativos das operações mais bem-sucedidas. “O setor está entrando em uma fase em que crescer não depende apenas de atrair novos clientes. Depende de entender quem já compra, aumentar a frequência de consumo e criar processos capazes de sustentar a expansão. A tecnologia no food service permite exatamente isso”, afirma.Para o empreendedor Vilarins, a tendência é que essa transformação se intensifique nos próximos anos. “Assim como aconteceu em outros setores, a tecnologia deixará de ser percebida como inovação e passará a ser vista como infraestrutura básica. Os restaurantes que construírem essa base agora terão mais capacidade de crescer com previsibilidade, manter margem e se adaptar às mudanças do comportamento do consumidor”, conclui.