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Queda da Selic alivia crédito mas não salva empresas sem controle financeiro

por Matheus Mattuvo

Especialista alerta que falhas em fluxo de caixa, precificação e planejamento tributário continuam comprometendo pequenos e médios negócios mesmo com juros menores 

A recente redução da taxa Selic para 14,50% ao ano, anunciada pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central no fim de abril, reacendeu o debate sobre o fôlego que a queda dos juros pode trazer para empresas pressionadas por crédito caro, capital de giro apertado e margens comprimidas. Na prática, porém, a melhora monetária tende a ter alcance limitado para negócios que operam sem controle financeiro, com precificação equivocada e baixa previsibilidade de caixa.

Para Fabinho Nascimento, especialista em contabilidade, gestão financeira, planejamento empresarial e CEO do Grupo FN, um hub de soluções empresariais com atuação no Brasil e nos Estados Unidos, a leitura de parte do empresariado ainda ignora um ponto central, os juros menores não resolvem problemas estruturais internos. “Existe uma falsa sensação de que a queda da Selic automaticamente melhora a saúde da empresa. Isso não acontece quando o negócio não sabe exatamente quanto gera de margem, quanto consome em despesas fixas ou qual é sua real necessidade de capital de giro. O dinheiro pode até ficar marginalmente menos caro, mas a desorganização continua custando muito.”

O problema não está apenas no custo do dinheiro

Dados do Banco Central mostram que o saldo das operações de crédito para pessoas jurídicas permanece elevado, refletindo a dependência de financiamento por parte de empresas que operam pressionadas por capital de giro e custos financeiros ainda altos. Nesse contexto, a redução da Selic tende a aliviar parte dessa pressão, mas especialistas alertam que o acesso a crédito, por si só, não corrige falhas estruturais de gestão. 

Segundo Fabinho, um dos erros mais frequentes está na confusão entre faturamento e lucro real. Empresas que ampliam vendas sem rever custos, impostos, prazos de recebimento e estrutura operacional podem crescer apenas em volume, sem gerar caixa. “Muitos empresários olham para o faturamento como sinônimo de sucesso, mas ignoram que vender mais sem gestão pode acelerar a deterioração financeira. O caixa sofre silenciosamente.”

Vender mais pode aumentar prejuízos 

Em setores competitivos, é comum que empresários reduzam preços para manter volume comercial sem recalcular impactos tributários, custos indiretos ou despesas administrativas. O resultado costuma aparecer meses depois, com dificuldade para cumprir obrigações básicas, negociar fornecedores ou acessar crédito em condições sustentáveis.

A redução da Selic ocorre em um momento em que o Banco Central ainda mantém política monetária restritiva, com cautela diante das incertezas inflacionárias e geopolíticas. Isso significa que, embora o custo do dinheiro tenha recuado, o ambiente financeiro continua exigente para empresas com baixa capacidade de planejamento.

Para Fabinho, a discussão deveria sair do foco exclusivo no crédito e migrar para a disciplina de gestão. “A empresa quebra menos por falta de faturamento e mais por falta de controle. Sem fluxo de caixa projetado, planejamento tributário coerente e leitura clara dos números, qualquer melhora macroeconômica vira apenas um alívio temporário.”

Ele afirma que pequenas e médias empresas costumam reagir tardiamente aos sinais de deterioração financeira, recorrendo a empréstimos quando o caixa já está comprometido. “Crédito pode ser ferramenta estratégica quando existe método. Sem organização, ele vira apenas combustível para prolongar uma crise que já começou”, conclui.

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